Ancião, memória viva
A sociedade capitalista foca todo olhar nos jovens. Jovens empreendedores, jovens executivos, jovens atletas e por aí vai. E é certo ter no jovem o investimento, assim como na criança a esperança de futuro. Mas, e o idoso, aonde fica nessa sociedade da produção e consumo?
O idoso já produziu a todo vapor, já consumiu de um tudo que foi ditado pelo mercado e no outono da vida, mais lento e paciente, torna-se um doador de afeto e experiências.
É muito comum até mesmo as crianças olharem o idoso como sinônimo de burrice ou falta de conhecimento. Isso se justifica na falta de habilidade do idoso em manipular tecnologias com a mesma presteza que um jovem. É comum eles não terem paciência em esperar o idoso descobrir a saída e dizerem prontamente: - Deixe que eu faço, vô ou vó.
Só que eles não lembram que o idoso faz contas das quatro operações de cabeça, não perde tempo em pegar o celular para fazer contas. O idoso sabe cantar o Hino Nacional Brasileiro sem errar a letra. Para quê? Para não passar vergonha em eventos oficiais, como muitos governantes têm passado.
O idoso sabe fazer bodoque, ler de carreirinha, sabe fazer pipa, escrever corretamente (os alfabetizados) e tantas outras coisas que os jovens delegam às máquinas fazerem em seus lugares.
O idoso prefere ler impressos em papel e fazer seus registros também em papel. Os jovens não gostam de escrever com caneta e preferem ler textos curtos e rasos que são divulgados pelas redes sociais. Independente se é “fake news “ou verdade, afinal eles não costumam ter conhecimentos de conceitos e teorias ou conhecimentos gerais, visto que esses, não são divulgados nas redes sociais.
Algumas pessoas são saudosistas e criticam o uso de celulares, computadores e outras tecnologias e comparam esses tempos com tempos passados.
O passado deve nos servir de referência para sabermos o que deu errado, para não repetir e melhorarmos o que deu certo. Nosso tempo é este: presente! E ainda bem que o mundo evoluiu. Ainda bem que estamos, nós idosos, tendo a oportunidade de acompanharmos os avanços e nos aproveitarmos deles.
Ainda hoje existem muitas crianças que brincam livres, sobem em árvores, fazem rodas, correm pique-esconde e outras brincadeiras. Existem crianças que pedem a benção a seus pais e avós; escutam estórias; fazem orações e respeitam os mais velhos como “antigamente”. Conheço muitas dessas crianças que além de tudo isso, assistem desenhos e brincam com jogos nos celulares e assistem filmes em outros idiomas.
Para que tudo isso ocorra de forma harmoniosa, basta que a criança tenha orientação, educação doméstica, aprenda em casa a ter princípios e valores que nortearão a formação do seu caráter.
Minha mãe sempre repetiu: - Criar filho não é igual a plantar batatas. Criar filho dá trabalho, mas o resultado é “quase” certo. Só uma boa criação em casa pode garantir que o adolescente e jovem tenham empatia com os demais; pense no coletivo; respeite familiares, vizinhos, professores, carteiros, motoristas e garis.
O horror a que temos assistido não está ocorrendo porque o mundo evoluiu e sim porque não há políticas públicas que garantam às crianças creches e escolas de mínima qualidade para que pais e mães trabalhem deixando seus filhos em segurança.
E os idosos? Os idosos são nossas bibliotecas vivas; nossas fontes de experiências e sabedoria.
Nós, os idosos, deveríamos estar sendo utilizados nas mais variadas profissões, como consultores, notórios saberes, treinadores etc.
Sem a valorização e respeito aos idosos não podemos pensar em uma sociedade educada e humanizada. Pioraremos o horror que já temos e só engrossaremos as fileiras dos individualistas, personalistas, capitalistas e o desastre só aumentará.
A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá